SUMI-Ê

 

"Os Quatro Nobres da Pintura Oriental"

 

Em todas as culturas existem relatos de simbologias relacionando lugares ou coisas à certas virtudes, estas certamente têm o objetivo de trazer para a população uma maneira de aprender o cultivo de sentimentos bons e também de colocá-los em prática. Na maioria das vezes a simbologia possui através de palavras simples um conteúdo espiritual enorme, seu entendimento não é um processo rápido, pois ocorre conforme o indivíduo cresce e assimila as peculiaridades da vida, um dia ele tem uma opinião, no outro esta poderá estar mais depurada e acrescentada de novas conclusões.

No Oriente, especificamente na China e Japão, existe a simbologia dos " Quatro Nobres " (o bambu, a ameixeira, a orquídea e o crisântemo ). Cada um possui uma simbologia diferente, mas com algo em comum, os mestres notaram que ao juntar suas filosofias aparece um maravilhoso conjunto de máximas ou orientações que compõem o que um homem precisa saber e fazer para ser uma pessoa boa e justa, tanto para si como para a sociedade.

Os artistas orientais para expressarem todo o conteúdo espiritual existente nos "Quatro Nobres ", os elegeram como os principais temas da pintura ( Sumi-ê ). O que levou os artistas a escolherem esta fonte de inspiração, certamente estava relacionado ao conteúdo que cada um carrega. Para realizarem obras que mostrassem toda esta aura de virtude e boas coisas, eles deviam buscar a perfeição em cada traço, em cada composição, muitos ficaram tão especializados em determinados temas que somente o pintavam, mas quando o faziam existia uma energia tão grande presente em suas obras que era difícil saber se aquilo era fruto de um ser humano ou de um anjo.

O mais conhecido dos "Quatro Nobres " é o bambu, principalmente por ser ele o lembrado quando pensa-se em pintura oriental. A ameixeira ( umê ) é pouco conhecida no Ocidente, seu galho é todo retorcido e seco, bem diferente de sua irmã ocidental. A orquídea é encontrada nas florestas, sua peculiaridade é possuir folhas longas e finas. O crisântemo é o mais fácil de se encontrar, existem muitos tipos e todos são usados como tema.

No Oriente, o bambu é relacionado a valores fundamentais que são necessários para um desenvolvimento sadio. Seu crescimento em linha reta é comparado ao caráter íntegro de um homem exemplar, mas é a flexibilidade de seu tronco o que mais inspirou os mestres e filósofos. Através desta característica ele pode passar ileso por tempestades e ventanias, adaptando sua forma ao curvar-se ao sabor do vento e assimilando uma energia que certamente seria destruidora, isto é relacionado à firmeza de um nobre que sabe os momentos certos para se abaixar e para levantar. Devido à esta flexibilidade ele passa por inúmeras experiências e acrescenta à sua história muitos fatos, no Oriente saber ouvir, e principalmente " saber abaixar a cabeça em certos momentos " , não é visto como uma coisa errada, mas sim como uma virtude. Suas folhas verdes sempre frescas e inalteradas no decorrer das estações são comparadas à estabilidade, à força de resistência e à fidelidade inabalável de um caráter válido como modelo de ética. Acrescenta-se ainda o fato do bambu ser oco, o que parece opor-se à força e corresponde ao ideal Zen de "vazio interior " ( para assimilar as coisas à nossa volta devemos ter "espaço " em nosso interior, procurando diminuir nossos preconceitos que escurecem nossa visão ).

Os Samurais utilizaram muito a simbologia relacionada à flexibilidade do caule do bambu, principalmente devido ao autocontrole que ela orienta, eles tinham uma frase que mostrava isso: " A verdadeira paciência consiste em suportar coisas que nos parecem insuportáveis ".

A ameixeira é muito relacionada à força, coragem e experiência dos mais velhos. A ternura existente em suas flores e seu galho seco retorcido harmoniosamente, dão um toque poético à esta planta, muitos escritores falavam de suas virtudes e na beleza de contemplá-la. Sua simbologia considerada mais bonita, é a importância de se respeitar os mais velhos, foram eles que através de seu trabalho no passado proporcionaram as condições necessárias para estarmos vivendo agora, além de contribuírem no presente com sua maravilhosa sabedoria de vida.

As orquídeas utilizadas como tema são as encontradas nas florestas, assim elas florescem ocultas e através desta discrição são relacionadas ao refinamento da elegância feminina, suas folhas longas e soltas também são símbolo de alegria e pureza. Sua flor delicada e bela, é ligada ao refinamento espiritual. Os mais importantes pintores de orquídeas foram monges-zen, isto ocorreu principalmente devido a dificuldade de tratar este tema e na forma como ele é expressado.

O crisântemo é relacionado à busca de aprendizado que uma pessoa deve fazer para crescer como ser humano, principalmente ligado aos temas artísticos ( poesia, pintura, caligrafia e música ) que proporcionam uma visão mais abrangente da vida. Muitas pessoas em altos cargos executivos praticam estas artes, suprindo as lacunas de seus aprendizados certamente racionais, ficando mais completas para realizarem suas funções com eficiência maior. O crisântemo também é um dos símbolos da Casa Imperial Japonesa, como o espelho e a espada, conferindo à ele a virtude da sabedoria.

Quando as virtudes expressas em cada tema são unidas em uma só, aparece uma filosofia de vida que é considerada completa pelos mestres. O bambu fornece a flexibilidade e a abertura interior, a ameixeira o respeito ao passado e às pessoas, a orquídea à beleza simples que pode ser contemplada em todos os momentos e lugares da vida e o crisântemo à busca de sabedoria e conhecimento. A prática deste conjunto de filosofias refina o indivíduo para uma posição cada vez melhor, principalmente quando é analisado a parte espiritual, esta não é conseguida comprando-se uma caixa mágica ou outra coisa simples, mas através de um trabalho diário de observação, reflexão e acima de tudo amor. Quando ama-se as coisas à nossa volta, existirá o sentimento de buscar melhorar-se como pessoa, pois conforme nossa condição atual ainda fazemos muitos erros e depois de analisarmos isto nos sentimos tristes. A busca espiritual não é um caminho fácil nem rápido, demanda tempo e esforço próprio, mas conforme vamos acrescentando tijolos em nossa construção, certamente estaremos mais aptos para proporcionar mais alegria e felicidade a cada dia que se passa.

 

 

 
Artigo escrito e gentilmente cedido por Rodrigo Dantas Casillo Gonçalves, tendo sido publicado no Jornal "A Cidade" de Ribeirão Preto.