FILOSOFIA ORIENTAL
A Energia Vital

No Oriente fala-se de um tipo de energia que está presente em tudo à nossa volta, ela influencia desde o mais simples ser ou coisa até os planetas. Esta força cósmica, que é relacionada à essência do Universo, envolve todas as entidades que nele existem e dá vida pois ela não fica estagnada em um lugar específico, mas se movimenta e como um rio sempre é renovada. Ela possui muitos nomes, na China chama-se Ch'i, no Japão, Ki e na Índia, Prana.

O oriental vê nosso mundo com olhos diferentes do ocidental, deixando de lado uma visão racional ele procura se relacionar com as coisas à volta e sabe que tudo faz parte de um grande conjunto. Com este posicionamento, quando ele contempla um jardim de flores ou uma bela paisagem, sabe que a mesma energia que fez estas belas obras existe em seu interior e assim consegue dar mais valor a suas capacidades. Quando uma pessoa têm este ponto de vista, ela se relaciona melhor com tudo à volta e traz mais harmonia para sua vida, pois sabe que faz parte de uma grande entidade maravilhosa.

Nos oceanos ocorrem correntes de água, cada uma possui características distintas, uma é quente e rápida, já outra é fria e lenta, ou se diferenciam pela profundidade. O fluxo de energia pode ser comparado à estas correntes oceânicas, existe uma energia que engloba tudo, desde o mais simples ser até os planetas, mas dentro desta energia como nos oceanos, ocorrem correntes, que são a força motriz que renovam e dão vitalidade e poder. Através de séculos de observação, mestres notaram que podiam utilizar estes fluxos para realizarem coisas maravilhosas, muitos foram para o lado artísticos, outros para a manutenção da saúde ou para as artes combativas.

Na China principalmente, também apareceu a filosofia das mutações, Yin-Yang, os opostos que se completam, certamente relacionados ao fluxo da energia vital, que hoje é de uma maneira e amanhã poderá ser de outra. O jogo conjunto Yin-Yang em eterna mutação determina não apenas o relacionamento entre sexos, como também o equilíbrio de todos os outros pares, ou dos pares de conceitos que constituem uma unidade polarizada, como, por exemplo: corpo e espírito, consciente e inconsciente, o ideal e a realidade, direita e esquerda, governo e oposição, acima e abaixo, dia e noite, etc. Cada pólo tem valor idêntico ao outro, os pólos se completam e se necessitam mutuamente. No entanto, quando o equilíbrio habitualmente existente entre eles é perturbado, ambas as partes mostram o seu lado destrutivo e maléfico. Portanto, a meta não é incentivar um pólo em prejuízo do outro, por parecer melhor, porém visar um equilíbrio que beneficie ambos.

Os artistas orientais procuram colocar em suas obras a mesma energia que existe no modelo que escolheram, deve existir vida e a pintura através de seus traços e composição é comparada como um ser vivente. Um ponto de uma paisagem não representa uma águia, ele é o próprio pássaro. Os mestres da arte da caligrafia japonesa ( Shodô ), falam que quando escrevem o ideograma representando a chuva, é a chuva que está contida no papel e podem até sentir o sopro úmido quando chegam perto de sua criação. Massao Okinaka Sensei, único grande mestre de Sumiê ( pintura oriental ) no Brasil, um dia pintou um peixe gato com um só traço, a energia e vitalidade que ele passou para o papel foi tanta que parece que o peixe está se mexendo.

Na manutenção da saúde, mestres aprenderam a canalizar a energia vital para através de toques ou exercícios controlarem e harmonizarem o fluxo que corre pelo corpo. Um fluxo interno bloqueado ou descontrolado causa doenças e sentimentos tristes, se retirarem estes "nódulos" a energia volta a se movimentar e assim a vitalidade volta a existir. O Tai Chi Chuan é um destes exercícios, através de seus movimentos ele busca que o praticante se harmonize com o fluxo de energia e sinta que ele existe e está presente em seu corpo. Na China apareceu um meio de se harmonizar o ambiente através do posicionamento de certos elementos e posturas que uma casa ou local deve ter, é o Feng Shui, através dele procura-se canalizar de maneira benéfica o fluxo que corre pelo lugar.

Hoje um dos mestres de artes marciais mais conhecidos, apesar dele já estar falecido, é Morihei Ueshiba Sensei, fundador do Aikidô. Seu trunfo foi saber que tudo à nossa volta está repleto de energia vital, e que através da busca da harmonia pode-se controlar esta força para realizar coisa belas. No Aikidô não existe oposição ou confronto direto, através da harmonia um fluxo ruim que nos é dirigido é controlado e desviado para um local que não faça estragos. O posicionamento de um praticante de Aikidô frente à uma agressão, é primeiramente tentar sair dela através de uma postura adulta onde são colocados os pontos de vista e as diferenças, caso isto não dê certo ele sabe se defender utilizando-se somente da força adversária. Ueshiba Sensei percebeu que a energia caminha muitas vezes fazendo espirais, e quando isto é passado para movimentos de artes marciais uma pessoa pequena pode projetar outra enorme muito longe.

No Kendô ( esgrima japonesa ) existe a expressão " Kakegoe" , ela é relacionada ao Kiai ( grito) que quando realizado utilizando-se de muita energia consegue desarmar um adversário. Os mestres conseguem somente através do olhar fazer um adversário ficar todo suado, mesmo que não sejam realizados muitos movimentos. Para se chegar à este ponto, eles estudaram e através de anos de treino conseguiram canalizar o fluxo de energia para certos lugares. Um praticante habilidoso consegue com uma espada ( Kataná ) através de um golpe rápido cortar um cano de metal, ou como alguns mais experientes cravar a lâmina em um capacete militar.

O conceito de energia vital quando entendido faz muito bem para a vida e principalmente para a postura frente às coisas que acontecem. Tudo está contido em uma mesma energia, então todos fazem parte de uma mesma família, ou seja, são irmãos. Assim nosso próximo, mesmo que por exemplo seja diferente quanto à raça é nosso semelhante, a energia que um dia percorreu seu corpo hoje está no nosso, o mesmo ocorre com os animais, plantas e tudo que existe. Esta filosofia gera um maior respeito e aceitação das coisas que acontecem, deixando-nos preparados para realizar coisas mais belas, ao se sentir alegre por estar no meio de um lindo jardim ou quando brincamos com um cachorro cria-se um sentimento de bem estar e assim podemos desfrutar o que de mais maravilhoso a vida nos reserva.

 

Uma Visão Chinesa de Imortalidade

 

"O conceito de vida eterna não tem nada a ver com ansiedade pela vida.

A verdade é que não há morte de fato.
Como é possível não haver morte ? Porque ,na verdade, existe não duas, mas uma única energia, uma força motriz que a tudo permeia, na raiz das atividades de nossas vidas. O Grande Vácuo, que é o ponto em comum de toda vida , já existe, e a vida nasce continuamente em seu interior. Então, qual a necessidade da vida ou da morte ?

É porque o nosso desejo pelas coisas toma proporções indevidas que nos desorientamos e começamos a separar vida e morte. Se observarmos deste espaço de quietude e tranquilidade, veremos que nunca houve vida ou morte alguma. Evidentemente há apenas uma única energia fluindo e circulando. "

Do prefácio do Can Tong Qi Shuliu , 1564 ( retirado do livro " O segredo da vida eterna ")

 
Artigo escrito e gentilmente cedido por Rodrigo Dantas Casillo Gonçalves.