KABUKI


4.  ELEMENTOS ESTÉTICOS

Neste capítulo será feita uma breve descrição dos principais aspectos que compõem toda a estrutura cênica do kabuki, o qual se vale de uma formalização estética nos domínios da interpretação, da cenografia e da acústica.

Como foi visto, a importância da categoria interpretação confunde-se com o próprio desenvolvimento de tal teatro. Na medida em que o apelo erótico cede lugar à arte da mímica e uma dramaturgia mais densa vai, paulatinamente, redesenhando a representação cênica, a habilidade interpretativa do ator torna-se o coração do kabuki.

Na verdade, existe um treinamento difuso do ator deste ramo teatral, que se estende desde a infância e compreende o estudo de danças e músicas japonesas. Em virtude da necessidade de dedicação e de experiência no cultivo do kabuki, o sistema familiar tornou-se um requisito essencial na transmissão do know-how desta arte, haja vista, desde o Japão feudal, aquela instituição venerar a linhagem da família.

Neste ponto, cabe fazer referência à noção de kata, que é a estilização gestual convencionada de toda uma tipologia de personagens[13], transmitida através de gerações. Esta linguagem baseia-se, em última instância, na observação das ações do cotidiano[14], embora sua simbolização cênica, seus movimentos mais próximos da dança do que da ação, a afaste de uma identificação “literal” com os gestos do dia a dia.

Paralelamente à linguagem gestual, tem-se o aspecto vocal da encenação, cuja forma não-natural de falar aproxima-se de uma espécie de fronteira entre o canto e a conversa. Não só os diálogos, mas os gestos se fazem acompanhar de música, de modo tal que a coincidência com a desenrolar da ação surte um efeito rítmico, adquirindo o movimento do ator um aspecto estilizado de dança.

Um traço marcante do kabuki é a exploração da beleza estatuária, como pode ser comprovado pelo exemplo da técnica “mie”. Tal recurso consiste numa pausa do ator, em certos momentos culminantes, em uma atitude pictórica, olhando fixamente  e cruzando  este olhar.

Por outro lado, a cenografia responde pelos prodigiosos efeitos visuais presentes no grande dinamismo do palco, em que se dá uma múltipla articulação entre o tempo, o espaço e uma ação fantasiosa e altamente emotiva. Aliás, no que se refere ao item “palco” na arquitetura do aludido teatro, é interessante observar a constituição de alguns de seus elementos.

Desse modo, já no período do kabuki de mulheres, o palco projetava-se para o meio do público que o circundava pelos três lados. Segundo Kusano,

“Para se adequar às evoluções formais e dramáticas das peças, o palco de kabuki logo começa a apresentar algumas diferenciações do palco de nô[15]: o palco é encurtado, passando gradativamente a ser construído num ângulo reto com o palco, em lugar do obtuso; o vestiário, ao invés de ficar localizado ao fim da longa passarela, é transferido para posição diretamente atrás do palco; as paredes de madeira ao fundo deste e ao longo da passarela são abolidas e substituídas por cortinas, com listas verticais alternadas de vermelho e branco, mas as entradas dos atores jamais se dão por aí; o palco é elevado ainda mais que o do nô (…)” 

Daí dois aspectos do palco chamam a atenção: (1) junto à ribalta, ele se revela mais baixo e espaçoso que os correspondentes ocidentais; (2) sua forma é a de um longo retângulo. Quanto às cortinas, vale notar que elas são puxadas para os lados.

Um traço marcante do kabuki é sua intimidade com a platéia. Isso ficou mais nítido com o advendo do hanamichi (“hana” — flores; “nichi” — caminho); usado para as entradas e saídas dos atores e que, originalmente, foi utilizado pelos admiradores para ofertarem presentes a seus atores prediletos. Esta plataforma de madeira eleva-se ao mesmo nível do palco. Gradualmente ela vai transferindo-se do centro para o lado esquerdo da platéia e estendendo-se do palco até o fundo, passando no meio dos espectadores. É nessa mesma plataforma que, cenicamente, dão-se as ênfases nas poses “mie”, nos monólogos e  nos diálogos mais importantes. Ali, o ator interpreta encarando o público, que participa do espetáculo, lançando palavras de elogio e gritando o nome dos atores.

Existem, ainda, dois notáveis recursos cenográficos. O primeiro é o mawari-butai — palco giratório (invenção japonesa) — que permite rápidas mudanças de cenários, com a visão da mudança de atmosfera ou de claro-escuro entre as cenas. O segundo denomina-se shichi-san e designa uma área de atuação onde, por uma pequena abertura, existe um pequeno elevador, artifício usado para a entrada e saída de personagens sobrenaturais: mágicos, espiões, fantasmas, duendes, etc.

Em suma, a exuberância cromática do cenário,  sua grandiosidade, bem como uma impressionante reconstituição de paisagens e lugares, tornam o kabuki, antes de tudo, um espetáculo visual.

A música se constitui como um elemento estético de grande relevância no kabuki, criando não só toda uma atmosfera no palco, mas servindo como motivo condutor do espetáculo. Um exemplo deste último fato seria o momento da “deixa” para a entrada do ator, marcada sonoramente.

Quanto aos instrumentos, nota-se o uso de vários no acompanhamento de cantos, embora exista um que se revela principal, denominado “shamisen”, constituído de três cordas e tocado com uma palheta.

Por fim, cabe dizer que o kabuki possui vários recursos acústicos, não se restringindo apenas à música. O toque de matracas, que assinala o início e o fim do espetáculo, seria o exemplo típico.

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