2. CONCEITUAÇÃO
2.1.
Etimologia
Segundo
Kusano (1993), Kabuki é um neologismo proveniente do verbo kaburu (“desviar”),
derivado etimologicamente de katamuku, literalmente “inclinar”. Embora tal verbo
seja atualmente obsoleto, desde o início do século XVII o adjetivo kabuki vem
sendo usado para designar algo extravagante, surpreendente, insólito, absurdo,
vistoso, berrante, o não-convencional, a tendência de vanguarda ou tudo o que
contrarie as normas vigentes.
Seguindo
as indicações de tal autor, a iconografia referente à segunda metade do século
XVI apresenta a suposta criadora do teatro kabuki, Okuni de Izumo, realizando
uma dança budista nembutsu odori (“dança de oração”), vestida em trajes masculinos:
ora usa calças compridas de estilo ocidental; ora enverga um chapéu estrangeiro;
no momento seguinte carrega um grande crucifixo sobre o casaco e um rosário. A
platéia era composta sobretudo por estrangeiros, que a partir desta época começaram
a chegar ao Japão, despertando uma grande curiosidade com sua moda européia.
Vale
notar que Okuni, líder dos não-conformistas de Kyoto, costumava apresentar-se
com seu grupo de atraentes dançarinas, com suas canções populares, explorando
a sensualidade e um estilo cênico livre. Seu arrojo, seus trajes bizarros, suas
danças exóticas e eróticas, nesse sentido, representavam a vanguarda, a última
moda, visto que os japoneses mais progressistas adotavam certas práticas culturais
estrangeiras, notadamente portuguesas, no que respeita ao mobiliário, ao vestuário
e ao emprego de palavras nas conversações. Em suma, o anticonvencionalismo de
Okuni foi identificado como kabuki, sinônimo de vanguarda, a ponto de as danças
de seu grupo passarem a ser designadas de kabuki odori.
Kusano
afirma, ainda,
“que
é exatamente com a acepção de bizarro, chocante, insólito que vai ser empregado
o termo kabuki, no século XVII, para designar as danças vivas e sensuais do grupo
daquela dançarina, sendo que só bem mais tarde vão ser aplicados foneticamente
os três ideogramas chineses (ka = canto), (bu = dança), (ki = mulher e, por extensão,
dançarina, cantora, cortesã ou prostituta, pelo fato de o kabuki ter sido criado
por uma mulher e ter sido seguido pelo kabuki de mulheres). Na última parte do
período Edo, com o kabuki sendo constituído apenas por homens adultos, o radical
referente à categoria mulher do ideograma (ki) é substituído, por seu turno, pelo
radical que se refere à categoria pessoa, dando formação ao ideograma que alude
à noção de técnica. Conserva-se a pronunciação da palavra kabuki, mas muda-se
o seu significado, com os três ideogramas chineses, com que o teatro kabuki é
conhecido ainda hoje, passando a significar (ka = canto), (bu = dança), (ki =
técnica, arte, habilidade) e que, coincidentemente, acabaram por apreender o sentido
mesmo do teatro kabuki, uma arte integral, o teatro total, baseado nas artes do
canto, da dança e da atuação”
2.2.
Barroco e Religião: sobre as matrizes históricas do Kabuki
O
contexto histórico da gênese do kabuki insere-se naquele período da história da
arte conhecido como Barroco (1601—1768). Apesar de tal designação pertencer ao
universo cultural do ocidente, o aludido movimento artístico conseguiu aportar
em terras japonesas, no século XVII, por meio do processo de aculturação, levado
a cabo por missionários portugueses e espanhóis, interessados na catequização
dos nativos orientais, dado o pressuposto etnocêntrico da superioridade cultural
européia cristã sobre o restante do mundo.
Nesse
sentido, ocorre um processo de difusão não só da fé católica, mas também das artes,
da literatura, do teatro religioso e da ciência ocidental, notadamente da astronomia,
embora houvesse resistência por parte de confucionistas e budistas quanto à irrestrita
adesão ao conhecimento estrangeiro.
Vale
notar que a Europa desta época era assolada por uma onda de ceticismo e pessimismo,
oriundos da crise religiosa deflagrada pelas relações entre os poderes secular
e temporal. Havia um grande questionamento social acerca do modo de vida eclesiástico,
sua desmoralização, a prática da venda de indulgências, fatores estes que inspiraram
a necessidade de uma reforma espiritual. Estava lançada a base para o movimento,
historicamente, conhecido como Reforma, que dividia a Igreja em católicos
e protestantes.
A
reação católica não tardou. Por meio do Concílio de Trento (1545—1563), convocado
pelo papa Paulo III, foi estabelecida a Contra-Reforma, cujo programa era
ditado pelo fortalecimento da autoridade papal, da Inquisição e pela criação de
novas ordens religiosas.
Para
combater a ameaça protestante, a Contra-Reforma ainda se utilizou de estratégias
no campo da iconografia religiosa como instrumentos de doutrinação. A partir da
exploração de imagens bíblicas, com suas cenas brutais e sangrentas de martírios
de santos na composição decorativa das igrejas, este novo signo visual, baseado
no bizarro, no chocante, no insólito, buscava estimular a piedade, o sentimento
místico, o temor a Deus, com o objetivo de arregimentar fiéis pela via da sedução
cinestésica, e não da intelectual. Em suma, esta reação católica delineou os contornos
da arte religiosa, cabendo ao jesuitismo espanhol expressar todos estes valores
em seu projeto de disseminação do catolicismo pelo oriente.
Por
outro lado, não se pode esquecer da existência de um regime político identificado
com o barroco, o absolutismo, que reflete o caráter sacral de que se revestia
o poder, sendo considerado o soberano o representante de Deus na Terra. Daí que
o exibicionismo absolutista se expressava em decorações faustosas, em arquiteturas
riquíssimas e ornamentadas.
Diante
do exposto, pode-se agora fazer algumas reflexões acerca de uma das matrizes do
kabuki. Em primeiro lugar, o movimento artístico Barroco significou a possibilidade
de encontro de duas tradições culturais — ocidente e oriente — de forma bem peculiar.
O contexto histórico em questão, palco das grandes navegações, das descobertas
das novas terras, do contato entre civilizações desconhecidas, engendrou no imaginário
social, europeu e oriental, um conjunto de idéias a respeito do ‘outro’, ou seja,
a apreensão do aspecto fabuloso de um novo mundo: seus habitantes, seus instrumentos,
seus conhecimentos, seus deuses etc.
Como
foi visto, no Japão do final do século XVI e início do século XVII, existiram
condições propícias para o desenvolvimento dos traços barrocos na formação do
kabuki. A valorização da cultura estrangeira, por se afastar dos padrões nativos
e ser exótica — signo de tendência de vanguarda — ao ser disseminada pelos missionários
portugueses e pelos jesuítas espanhóis, ajudará a veicular as idéias do heróico,
do extravagante, da morte, do insólito, do martírio como elementos estéticos de
um universo cultural exógeno; logo, valorizado.
É
plausível afirmar que os temas citados tenham encontrado guarida na cultura japonesa
pelo fato de não serem de todo estranhos à esta última. Paralelamente ao processo
de aculturação, teria havido uma revitalização de elementos presentes em antigas
práticas de representação japonesas, atualizadas sob a forma de “novidade”, tomadas
como emblemas da ‘vanguarda’, como signos do exótico.
Prova
disso é a presença, em antigas artes folclóricas e de representação japonesas,
dos seguintes elementos: enredos absurdos, cenas de assassinato e de sacrifícios
extremos; a ênfase na sensação, na emoção e na beleza física; o impacto pictórico
do cenário e figurinos; a teatralidade auditiva e visual; ou mesmo toda uma valorização
estética em detrimento da encenação propriamente dita.
Politicamente,
vale lembrar que o Japão vivia o período Edo (1603—1867), cujo controle político
estava centralizado nas mãos da família Tokugawa. A moralidade preconizada — baseada
no confucionismo — pregava a lealdade ao senhor, a piedade filial, a honra, o
agir de cada um em conformidade com sua posição social[1] dentro de um sistema
de castas etc. Ora, o tema do conflito vivido nesta época, o embate entre deveres
sociais x paixão, liberdade x repressão política, nada mais representará que a
típica dicotomia barroca dos opostos, cujos reflexos na arte delinearão os contornos
do kabuki que, vale lembrar, possuía uma conotação social anticonservadora . Nesse
sentido, pode-se citar o exemplo das infrutíferas tentativas do xogunato de controlar
o vestuário e a aparência dos mercadores — classe que bastante cultivou aquele
teatro. Com o desenvolvimento econômico deste grupo social, seu signo distintivo
passou a ser o luxo e a extravagância, a fuga do tradicional, além de uma devoção
às diversões e aos gastos faustosos.
Em
suma, A sociedade japonesa, em especial a burguesia, torna-se, assim, receptiva
à cultura européia por existir uma demanda social por uma vivência de valores
e busca de linguagens que pudessem expressar certos projetos políticos e anseios
sociais de se libertar das amarras do feudalismo. O kabuki foi produto e produtor
desta realidade social.
Paralelamente
a isto, tem-se a religião como a segunda matriz do teatro kabuki. É importante
frisar que as artes de representação no Japão agrícola possuíam uma íntima conexão
com ritos religiosos, na medida em que, nos espaços rurais, a atividade produtiva
eficiente pressupunha a execução ritual de cantos e danças.
Aliás,
o elemento erótico como traço fundamental na formação e desenvolvimento do kabuki
teve origem no seu antigo entrelaçamento com o aspecto lúdico e religioso da cultura
rural, conforme é indicado por Kusano:
“Erotismo
e artes têm-se inter-relacionado, desde há longo tempo, na história japonesa.
A origem dessa conexão está nos ritos xamanísticos primitivos dos deuses, nos
quais se acreditava que a sacerdotisa (e, algumas vezes, a moça dos ritos das
plantações de arroz) era a amante do Deus visitante ou a sua companheira de cama,
na noite de sua visita. Mais tarde, no entanto, a distinção sutil entre a mera
prostituição e a devoção religiosa tornou-se vaga, e as aruki-miko (“sacerdotisas
peregrinas”) posteriores tornaram-se prostitutas itinerantes, intimamente relacionadas
às comunidades proscritas. Mesmo depois que o elo entre os ritos religiosos e
as atrizes cessou de existir, e mesmo quando elas se transformaram em simples
prostitutas, a sua ligação com os entretenimentos e as artes jamais findou. A
esta linha de atrizes pertencem as shirabyôshi (“dançarinas do século XII”), kusemai
(“dançarinas de nô”), e então — com a nova voga, e diretamente relacionado às
suas ancestrais — o onna kabuki (kabuki de mulheres)” (p. 64).
Um
exemplo desta intrínseca relação refere-se às primitivas e populares “danças de
oração[2]”
(nembutsu odori), criadas no século X e de inspiração budista, cujo desenvolvimento
desembocou em danças folclóricas bastante liberais. É curioso notar que foi a
partir destas mesmas danças que, historicamente, o kabuki surgiu no cenário teatral
nipônico, como se poderá perceber no próximo capítulo.