IMIGRAÇÃO JAPONESA

  3 - O RECRUTAMENTO

Os imigrantes, além das despesas com passagens, precisavam pagar uma comissão à companhia. O montante necessário para viajar explica o fato de grande parte dos imigrantes provir da “classe média” rural. Saito distingue três categorias entre os pequenos lavradores nipônicos, a saber: jisaku ou proprietários auto-suficientes; jisaku-kosaku ou proprietários arrendatários e os kosaku, isto é, arrendatários. A crença de que em pouco tempo ganhariam o suficiente para sua independência econômica levou-os a não titubearem em contrair dívidas para poderem viajar.

 

O contrato exigia três pessoas aptas ao serviço braçal por família, entre 12 e 45 anos. Face a essa exigência, os imigrantes recorreram ao kosei ou keishiki-kosaku, isto é, a incorporação à família de elementos estranhos a ela, parentes ou não. 

 A dificuldade encontrada para recrutar elementos interessados em vir para o Brasil, levou a companhia a fazer propaganda em termos exagerados, com perspectiva de enriquecimento rápido e a aceitar como emigrantes não apenas agricultores, mas todos  os que se interessassem em vir.

4 - A CHEGADA E AS PRIMEIRAS IMPRESSÕES

         O navio Kasato Maru zarpou de Kobe em 28 de abril de 1908 com os primeiros imigrantes japoneses, a saber: 781 sob contrato, 10 espontâneos e outros, totalizando 800. 

         A 18 de junho de 1908, o navio atracou no porto de Santos, dando início à imigração japonesa no Estado de São Paulo. Tomoo Handa relata que os japoneses chegaram às vésperas de São João e, ao verem os rojões subindo, explodindo estrondosamente, tiveram a ilusão de que o povo brasileiro lhes estava dando as boas-vindas.

          Estavam todos vestidos à européia. Eles de chapéu ou boné e elas de saia e camiseta apertada na cintura por um cinto e chapéu simples. Alguns homens, por terem participado da guerra, traziam no peito suas condecorações. Alguns empunhavam bandeiras do Japão e Brasil. Suas malas eram pequenas, na maior parte de vime branco e algumas de lona pintada, contrastando com os baús de folha e trouxas dos europeus. Nelas, traziam roupas indispensáveis e objetos de uso diário para higiene pessoal e outras utilidades.

         O Cônsul M. Santos da Silva considerou os japoneses baixos e feios, mas achou os provenientes de Okinawa mais fortes e resistentes. Em sua opinião, seria impossível esperar ou exigir do oriental mais que dois terços da produção de um europeu. Os salários, portanto, seriam menores.

         Durante a inspeção das bagagens, foi motivo de espanto quando um lenço de seda colorido passou das mãos do sorridente funcionário aduaneiro para o seu bolso. Os japoneses não conseguiram reprimir a exclamação: “Ele furta com naturalidade!”.

         Na inspeção ao navio, constatou-se que as dependências de terceira classe do Kasato Maru estavam mais limpas e asseadas que as primeiras classes dos transatlânticos europeus.

         No dia seguinte à chegada, os imigrantes embarcaram de trem rumo à Hospedaria de Imigrantes em São Paulo. Houve uma recepção, dada pelo Diretor, pelos funcionários e por cinco intérpretes japoneses. Durante sua permanência na hospedaria, os japoneses surpreenderam a todos pela  absoluta limpeza e organização. O Correio Paulistano faz referências elogiosas aos costumes e à educação dos japoneses, considerando-os asseados, ordeiros e dóceis.

5 - AS FAZENDAS DE CAFÉ E AS DECEPÇÕES

         Ainda no mês de junho, todos os imigrantes foram encaminhados às seis mais importantes fazendas cafeeiras do Estado de São Paulo. Nelas trabalhavam centenas de famílias de imigrantes estrangeiros ou de brasileiros – os colonos.  Na distribuição dos imigrantes japoneses, foi respeitado, na medida do possível, os laços de união entre elementos de uma mesma região. Assim, a distribuição deu-se da seguinte forma:

FAZENDA

MUNICÍPIO

PROCEDÊNCIA

FAMÍLIAS

AVULSOS

TOTAL

Dumont

Ribeirão Preto

Fukushima, Kumamoto, Kagoshima, Hiroshima, Miyagi e Tóquio.

51

13

210

Guatapará

Ribeirão Preto

Kagoshima, Niigata e Hiroshima

23

6

90

São Martinho

Sertãozinho

Kagoshima

27

12

99

Sobrado

S. Manoel

Yamagushi e Ehime

15

0

49

Floresta

Indaiatuba

Okinawa

24

3

170

Chanaan

S. Simão

Okinawa

24

6

155

          A fazenda de café era constituída pelo escritório, pela sede do fazendeiro, pela casa do administrador, pelo terreiro, pela máquina seletora de café e pelos demais setores, inclusive o pomar. Em outra parte ficavam as casas dos colonos. Estas formavam a chamada colônia, cortiços que podiam abrigar duas ou três famílias. Havia casas de madeira, mas a maioria era feita de tijolos. Não havia camas, e na primeira noite, alguns imigrantes tiveram que dormir sobre capim seco ou palha de milho, no chão. Para os imigrantes, a primeira noite passada nas fazendas já trouxe uma espécie de decepção.