GEISHA
As Relações de Parentesco entre as Geishas
As
geishas estão ligadas por relações de parentesco, tais como irmãs mais velhas,
irmãs mais novas, mães e filhas. As mães (okasan) são as mulheres responsáveis
pelas casas de chá, verdadeiras empresárias, onde as geishas são empregadas.
As geishas são as filhas dessas mulheres, e estão ligadas umas as outras por
laços entre irmãs. Vivem suas vidas privadas e profissionais como irmãs mais
novas e mais velhas uma das outras. Ser irmã significa ser uma geisha mais nova
ou mais velha. É uma relação que indica uma certa hierarquia. Uma geisha torna-se
a irmã mais nova de outra geisha com mais experiência. Os laços demonstram uma
relação familiar diferente da idéia de família ocidental (com noções sentimentais,
etc.) que definem categorias desiguais, porém complementares que
são a base da sociedade geisha.
As geishas não são o único grupo social do Japão que se estrutura em termos de relações de parentesco. Do ponto-de-vista da cultura japonesa, esse fenômeno aparece em ocupações tradicionais como: carpinteiros, mineiros, lutadores de sumô, entre outros. O ritual realizado para celebrar a união ente irmã mais nova e mais velha é o mesmo realizado nas cerimônias de casamento: sansan-kudo, que tem o significado de ligar os destinos como um laço. O ritual consiste em compartilhar o sake, a bebida tradicional japonesa. A partir daí, cabe à irmã mais velha ensinar a elegância do comportamento correto de uma geisha para sua irmã mais nova. Estabelece-se uma relação, um par em que a irmã mais velha passa a ser mentora, mas também amiga em uma relação de compatibilidade.
A Modernização das Geishas
As geishas são mulheres cultas e inteligentes. Nesse sentido, se assemelham às cortesãs da Idade Média na Europa Ocidental. Estas eram as mulheres instruídas, alfabetizadas que freqüentavam as bibliotecas. Belas, usavam jóias, se vestiam bem, tudo isto financiado pelas relações afetivas que mantinham com os homens da corte. Já as esposas destes senhores eram analfabetas, e o sexo praticado era apenas para procriação.
Com as geishas, algo semelhante se passa. São elas as responsáveis pelo deleite e divertimento dos japoneses, as companheiras na conversa e no conforto dos homens. São cultas e bem vestidas. Aliás, durante muito tempo (até o início do século XX), eram as geishas japonesas que ditavam a moda e a elegância das vestimentas no Japão. Representavam a vanguarda da moda japonesa. Isso só mudou a partir do processo de modernização japonesa em decorrência da influência do Ocidente. O Japão sempre teve a capacidade de assimilar processos externos e acrescentar a eles características japonesas. Isso evitou que o Japão perdesse características e tradições de sua própria cultura, o que é bastante comum no mundo ocidental. Em relação à vanguarda da moda japonesa, o mesmo aconteceu com as geishas. Por quase uma década (entre os anos 20 e 30), as geishas tentaram manter sua posição como líderes da moda. Quando os vestuários ocidentais penetraram no Japão (vestidos e xales), elas tentaram internalizar esses costumes. Porém, receberam muitas críticas de que não pareciam mais geishas.
A experiência fez com que as geishas percebessem que na tentativa de tornarem-se modernas, corriam o risco de perderem o que as tornava especial. A partir daí, tem-se uma ruptura crucial no seu significado social e natural e as geishas deixam de ser as inovadoras da moda e passam a ser as conservadoras de uma tradição. Hoje em dia, a existência da profissão das geishas se deve a essa função de conservação da tradição japonesa. Há inclusive um ditado que diz: "A Cultura Tradicional se vai, à medida que as Geishas somem", mostrando a idéia de que as geishas são o "umbigo", ou seja, o centro da sociedade japonesa. Representam a condensação dos problemas da modernização e da ocidentalização, que afetou a sociedade japonesa como um todo nas décadas de 20 e 30.