PRINCÍPIOS FILOSÓFICOS DA CALIGRAFIA ORIENTAL

OS PRINCÍPIOS FILOSÓFICOS DA CALIGRAFIA ORIENTAL(continuação)

A este ponto, antes de prosseguir, é importante esclarecer um argumento ainda muito misterioso aos olhos do ocidental; a formação do calígrafo. O treinamento de um discípulo calígrafo é baseado na cópia dos modelos mais famosos, até adquirir técnica no uso do pincel e da tinta até realizar a cópia perfeitamente. Este longo treinamento, que as vezes pode durar anos, visa a ensinar perfeitamente os três estilos clássicos da caligrafia, antes de produzir, sem maneirismo, uma grafia pessoal. Este treinamento baseado na cópia tem sentido somente se considerarmos o respeito dos chineses pela tradição, mas, sobretudo, se pensarmos a cópia não meramente assim, mas como uma tentativa de reencontrar nela o espírito que anima o seu original e como esforço de reencontrar através do pincel o caráter daquele mestre particular, o qual conferiu à obra uma beleza sem iguais. Trata-se também de reviver aquela identificação com a natureza que o mestre do passado experimentou no momento da criação.

Esta teoria é fundamentada nos princípios da pintura coletados num famoso tratado do século VI cuja formulação põe ênfase sobre a ressonância do espírito. Precisamente, o primeiro dos princípios enunciado por somente quatro caracteres: K'i Youn Chen Tong, estabelece a relação entre a ressonância do espírito e o movimento da vida. E aqui voltamos ao conceito chinês da mutação das coisas do Universo, cíclico, rítmico, respiratório (um tempo Yin, um tempo Yang este é o Tao).

Trata-se de um principio de comunhão de ritmos, de consonância. Em outras palavras, para expressar a vida é necessário que o espírito do paisagista esteja em harmonia com a natureza. Da mesma forma, o espírito do calígrafo deve estar em comunhão com o seu modelo ou com o caráter verdadeiro do signo que traça. Para criar uma verdadeira obra que reflita a harmonia e a contínua mutação da natureza, precisa realizar em si uma fusão do ritmo do espírito com o movimento das coisas vivas. O ideograma Ki, espírito, pode ser também traduzido como o latim espiritus, ou seja, a energia universal que atravessa as coisas e que dá vida à obra de arte. Se considerarmos essa acepção, Ki youn pode ser traduzido também como harmonia da respiração, ele equivale então a aquele estado de inspiração que precede as obras de arte: a identificação do Ser com o principio primário, a harmonia do mundo. Desta forma, a beleza de uma obra de arte chinesa origina-se da perfeita circulação deste espírito do artista em cada um dos signos que descreve, e na continuidade deste respiro artístico entre um traço e outro.

Numerosas histórias, sobretudo na fase da arte zen, ilustram a importância deste estado de identificação e a força criativa que ela confere aos artistas capazes de experimenta-la. Nesses momentos não existe mais distancia entre o sujeito e objeto e é abolida também a distinção entre a coisa contemplada e o contemplador. Nesses estado de comunhão da harmonia, no respiro e na fusão dos ritmos, o discípulo ultrapassa a pura percepção e penetra no mesmo coração do mestre, pelo qual é iluminado. Neste ponto o discípulo é raptado no verdadeiro sentido da palavra, recebe a revelação de um segredo, até então desconhecido. E improvisadamente é iniciado ao mistério da essência das coisas e do movimento da vida (Tao). Essa revelação mostra-lhe o caminho, e é somente após tê-lo percebido é que ele se torna um verdadeiro artista. Da mesma forma, as carreiras dos pintores famosos contam sempre de uma revelação ocorrida durante a contemplação da natureza, e existem também biografias de calígrafos que nos transmite como um famoso mestre tenha encontrado seu estilo observando uma cobra que deslizava na grama ou assistindo a uma luta entre animais selvagens. Seja como for, o importante é o princípio de que sem uma revelação não há uma obra prima.

Em relação à técnica, os princípios fundados sobre a ressonância do espírito requerem toda uma disciplina espiritual além da destreza manual. O pincel chinês firmemente segurado e manipulado perpendicularmente ao papel recebe o impulso ao movimento diretamente do coração, ou seja, de uma atitude interior que mexe não só o braço, mas o corpo inteiro. "Coração reto, pincel firme", diz um preceito chinês, e isso pressupõe uma preparação total fundada na distensão interior, na concentração, na calma, no vazio criado no espírito e que deve ser ocupado antes de começar a escrever pela clara representação da imagem, do caráter, principio levado ao máximo na filosofia zen. Somente após essa difícil preparação que se realiza uma escritura perfeita. Tal impostação prevê que o artista escreva somente quando se sente pronto. Neste sentido, um outro ditado chinês diz "quando quer escrever, que esteja bom tempo no seu coração" que significa também que não só deve se possuir um grande grau de serenidade interior, como também uma necessidade profunda de criar. Este estado de calma não se fabrica, mas ao contrário, é obtida através de um profundo treinamento espiritual conhecido na filosofia budista como "distanciamento" ou "desinteresse", no sentido de um afastamento do desejo mundano e, sobretudo, através do esquecimento do ego (yu wei).

Um grande crítico Tang do século IX disse a esse propósito: "aquele que se preocupa com sua obra, e agita o pincel com a vontade de fazer um quadro, é destinado ao fracasso. Aquele que exercita a mente e usa o pincel sem ter consciência de pintar, alcança o coração da arte da pintura. A mão não será rígida, o coração não será gélido, e a obra se realizará sozinha, sem entender como isso foi possível". Como a mesma intenção, o grande poeta Sou Tong Pó escreveu: "aquele que decide fazer um poema, não é um poeta".

Concluindo, conhecendo melhor a caligrafia, nos compreendemos como ela é muito mais do que uma simples escritura, e que implica mais de uma habilidade. Penso que ficou claro porque os artistas sacrificavam tanto tempo no trabalho e no exercício, como também muitos deles se submetiam às disciplinas espirituais. O letrado é consciente que através de sua grafia, ele desvenda aos outros a sua mente a sinceridade de seu coração, e que no seu traço, se reconhece um verdadeiro artista de um mercante das artes.

Enfim, segundo a doutrina estética dos letrados, que é mais uma ética ou uma mística, fortemente influenciada pelo taoísmo e pelo budismo zen, a caligrafia, como a pintura, se torna um verdadeiro "caminho da escritura" (shodo), que pode permitir a alguns dos seus praticantes alcançar através treinamento e meditação, a iluminação chamada "samadhi da escritura". Místicos ou não, os grandes calígrafos nunca esquecem que na tinta se inscreve a marca da própria personalidade que é chamada "sigilo de coração". Espelho de sua natureza íntima, expressão de sua experiência interior, a caligrafia é uma imagem do espírito do homem e não simplesmente uma manifestação artística privilegiada; "o Buda é o seu espírito", diz um mestre zen, ao qual poderíamos acrescentar "o estilo é o mesmo homem".

Donatella Natili
Contato
Brasília 30/04/2003

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