OS
PRINCÍPIOS FILOSÓFICOS DA CALIGRAFIA ORIENTAL
Se para nós ocidentais uma imagem
pode invocar infinitos conceitos, e pode ser descrita por um grande
numero de palavras, para a cultura chinesa e, em parte, para a japonesa,
as palavras são imagens, e os conceitos têm sua primeira
visualização no momento em que são escritas. Desde
o século IV d.C., a caligrafia na China foi considerada a arte
visual por excelência, também superior à pintura,
e existe uma estreita conexão entre essas duas artes.
De fato, o ideograma nasceu como o desenho
de uma coisa real e, apesar da transformação que sofreu
através de numerosas passagens ao longo dos séculos e
da simplificação atual após a reforma maoísta,
da mesma forma que a pintura, resulta sempre numa imagem de uma realidade
mais do que um signo convencional. Tradicionalmente, ninguém
pode se tornar um grande pintor se antes não for um bom calígrafo,
e aqueles que dominam a caligrafia são também bons pintores
enquanto donos do pincel. A caligrafia reflete também a alma
chinesa, porque antes de ser um artista, o calígrafo era um filósofo
e um sábio. Segundo Shi Tao (um pintor do século XVII),
a caligrafia expressa o nível cultural e a integridade moral
de um pintor, pois obedece à tinta, e a tinta ao pincel, o pincel
à mão, a mão ao coração do pintor.
A caligrafia, conseqüentemente, resulta para os chineses e japoneses
numa espécie de grafologia estética, que alcança
o essencial, ou vai além da imagem. O sho (caligrafia) é
então uma arte simples e direta. Somente duas cores, o branco
e o preto, são utilizados para criar todos os elementos próprios
a cada arte. Em particular a cor branca, presente no principio como
superfície vazia do papel, desenrola uma função
importantíssima em relação à inspiração
do artista como é para o escultor estar na frente de um mármore
virgem, e, como veremos, pelas suas implicações filosóficas
na concepção do espaço na China.
Graças a esta concepção,
os traços pretos que formam a imagem no papel estabelecem uma
harmonia perfeita com a cor branca do papel, elevando o simples ato
de escrever a uma verdadeira expressão artística.
A arte da caligrafia é de certa
forma fortemente constrangida pelo motivo dos ideogramas, ou kanji,
cujos traços variam não só de número, forma,
significado, mas também de estilo, dessa forma podendo ser doces,
rápidos, refinados, sutis, rítmicos, vigorosos ou estáticos.
Na arte sho cada artista cria o próprio estilo, embora fortemente
condicionado pelo fato de dever adotar os ideogramas chineses como sujeito.
Antes de aprofundarmos nossas reflexões
sobre os princípios filosóficos desta arte "mãe
de todas as artes" na China e no Japão, gostaria de falar
um pouco da história dos ideogramas e da sua estruturação.
Como sabemos, as línguas em geral
são caracterizadas por dois componentes, o som e o significado.
A diferença com a língua chinesa, composta por ideogramas,
como a própria palavra já diz, é que ela representa
o significado antes do som, ou um significado que evoca o seu som. Originariamente,
o sistema ideogramático surgiu dos pictogramas gravados nos cascos
de tartaruga e ossos de animais descobertos nos sítios arqueológicos
da dinastia Ying (1300- 1000 a.C.), a mais antiga dinastia chinesa constatada
até hoje, que se situava ao longo das margens do rio Amarelo.
Naquela época, os cascos de tartaruga e os ossos de animais eram
utilizados pelos oráculos para escrever os resultados das próprias
adivinhações (exagramas).
Estas escrituras eram obviamente ainda
muito primitivas, porém o fato de já ter um certo grau
de conceitualização, sugere que sejam derivadas de escrituras
ainda mais antigas. Na sua longa história, os caracteres tem
sofrido mudanças em termos de desenhos, funções
e significados, mas, comparadas aos antigos hieróglifos egípcios,
essas inscrições da época da dinastia Yin (ver
figura 1) eram notavelmente avançadas em termos de design. Após
uma série de desenvolvimentos formais e de aplicações
especificas, a língua chinesa alcança o estilo standard,
dito "kaishu", que remonta à dinastia Sui (589-618
a.C.). Esse estilo dominou também com a invenção
da estampa, na época Tang e Sung.
Todavia, já muito cedo o aspecto
geométrico dos caracteres foi arredondado pelas mãos dos
calígrafos que deram origem ao estilo cursivo, conhecido também
como estilo "herva", gyosho, uma verdadeira e própria
arte, com caracteres muito difíceis de se compreender. Eram utilizados
normalmente nas composições poéticas ou nos textos
que acompanhavam as pinturas do final do século XI, quando pela
primeira vez a prática da caligrafia e da pintura tornou-se uma
coisa só. Neste momento o artista, como calígrafo, cria
as formas segundo as técnicas convencionais da utilização
do pincel, porém a vitalidade da obra passa a depender da particular
identificação do pintor com o sujeito, mais do que com
o modelo.