ESTRATÉGIAS DO SAMURAI


No seu estudo sobre a estratégia, os guerreiros japoneses utilizaram alguns dos modelos zen, mas grande parte da elaboração das artes marciais foi além da esfera do Zen puro.

A doutrina do extermínio de um tirano para salvar muitas pessoas da opressão é encontrada nas obras do filósofo confucionista Mencius, na Escritura da Grande Morte budista e nos antecedentes chineses da escola Tendai do Budismo. Contudo, esse conceito não é muito enfatizado no pensamento japonês, nem mesmo pelo samurai, que poderia tê-lo usado para racionalizar sua própria profissão e ascensão histórica ao poder sobre a antiga aristocracia.

Nisso o pensamento político budista japonês difere do chinês, no qual havia muito mais insurreições de inspiração budista do que no Japão. Provavelmente, não tanto devido a diferenças entre o Budismo chinês e o japonês, mas sim a diferenças na filosofia política das duas nações. Enquanto na China a legitimidade da revolução contra a tirania foi bem definida na filosofia clássica nativa, no Japão a tendência Xintó de pensamento político representava as classes dominantes como racialmente superiores ao campesinato, por conseguinte com privilégios sócio-políticos invioláveis sobre as pessoas comuns.

No Japão, o poder do cargo de liderança tradicionalmente é tão grande que pessoas fracas podem ocupá-lo sem que essa fraqueza chegue a comprometer a autoridade do próprio posto. É então que os cortesãos que estão junto do governante podem tomar-se a força determinante do governo, evitando ao mesmo tempo a responsabilidade pessoal pela atuação na estrutura de consenso dos pares, à sombra de uma figura de autoridade incontestável. Podemos observar indiretamente as limitações do poder real do governante enquanto pessoa, o que só intensifica a sua consciência da necessidade de um governante perceber o que de fato está acontecendo dentro e fora do círculo de seu gabinete de conselheiros.

Perceber com precisão as situações potenciais é a arte da guerra.
Não esquecer a desordem em tempos de paz é a arte da guerra. Perceber a situação dos Estados, saber quando haverá ruptura e sanar a desordem antes que aconteça é também a arte da guerra.

O ideal de prever os acontecimentos antes que aconteçam é buscado como foram de lidar com eles antes que se faça necessário um grande esforço. Esse conceito provém do Taoísmo ancestral através do Zen, e é aplicado em todas as artes marciais individuais, bem como em todo tipo de coisa. Como o conceito central é a fluidez perceptiva, um dos mestres do Zen clássico chegou a dizer: "Não falo do que você faz no dia-a-dia: minha única preocupação é que a sua visão seja acurada."

A monumental Zongjinglu, enciclopédia pan-budista utilizada pelos primeiros instituidores do Zen no Japão três séculos antes de Yagyu , explica a posição budista clássica: "Você pode seguir explicações convenientes na medida em que se apegar ao provisório em detrimento do real. Mas se você alcançar o ensinamento imediato e completo, então compreenderá o real e se abrirá para o provisório. Se você se apegar ao provisório, ensinamento e percepção estarão divididos".

No Zen existe algo chamado "bater no capim para assustar as cobras". Sobressaltar ou surpreender um pouco as pessoas é um estratagema, assim como golpear o capim para surpreender as cobras.

Tomar uma atitude inesperada como uma manobra para surpreender os adversários também constitui uma aparência que oculta uma intenção ulterior, uma arte de guerra.

Esse tipo de estratégia é empregado comumente em toda sorte de interação no Japão e alhures, no Oriente. Baseava-se originalmente nos antigos ensinamentos taoísta e budista como dispositivo pedagógico.

Os ocidentais, pouco familiarizados com essa estratégia, costumam enfrentar dificuldades para diferenciar entre o interior e a superfície, chegando a confundir aparência com intenção. Estudiosos ocidentais do Zen defrontam com um problema duplo nesse sentido, porquanto também precisam diferenciar quais são realmente os dispositivos sociais dos japoneses e quais são os verdadeiros dispositivos zen.

O domínio da "não-espada", é talvez a façanha culminante do caminho do guerreiro, que possibilita a utilização do Zen na vida cotidiana. Em teoria, "não-espada" significa a capacidade de se defender sem uma arma, sugerindo o uso da arma do adversário contra ele mesmo. Essa não é apenas uma técnica da esgrima mas também do debate, da negociação e de outras formas de competição.

"Não-espada" não significa necessariamente que você tenha de tomar a espada do adversário. Tampouco significa que tenha de dar um show, empunhando a espada para manter a sua reputação. E a arte de, sem espada, não se deixar vencer.

O propósito básico não é ter a intenção deliberada de arrebatar uma espada da mão do adversário. A arte da "não-espada" foi utilizada pelo Japão moderno para tornar-se uma grande potência industrial em um século, não obstante seu pequeno território e a falta de outros recursos exploráveis industrialmente além do trabalho e do engenho humanos. Seja na esfera pessoal do guerreiro seja no domínio público de toda uma nação ou cultura, a essência da arte da não-espada é fazer da engenhosidade o seu recurso.

Em algum momento, quando o guerreiro japonês sente que acumulou energia suficiente e que seu adversário oferece uma lacuna adequada, pode haver a conclusão súbita de uma interação. Embora evidente em desempenhos das artes marciais tradicionais, quando esse fenômeno acontece no contexto de eventos mais complexos, ele pode confundir ou desorientar um espectador desinformado.

O conhecimento das táticas pode ser empregado de modo defensivo e também agressivo. Esse conhecimento pode solucionar o conflito disseminando-o, evitando-o, bem como o vencendo . Do ponto de vista do Zen, uma das artes dessa ciência, e como de qualquer outra, consiste em saber quando usá-la e quando não usá-la.

  O início está no aprendizado, não como um passatempo ou uma busca intelectual, mas como uma forma de aprender a viver. Para o guerreiro, isso significa, acima de tudo, aprender a viver bem sob coação, aprender a sobreviver ao caso. Como os guerreiros eram apresentados a pessoas de todas as classes ao longo dos séculos de lei marcial no Japão, certos aspectos da cultura dos samurais, incluindo a arte da vantagem e os ensinamentos zen, dirigidos especificamente aos guerreiros, passaram a exercer influência em toda a sociedade japonesa.

Devido à duração extremamente longa da lei marcial no Japão, o equilíbrio no Bushidö entre o Zen e a arte da vantagem parece ter pendido decididamente para esta última, Na verdade, o fato parece ter acontecido a tal ponto que chegou a influenciar o próprio Zen-budismo com formas caracteristicamente japonesas, bastante marcadas por elementos da arte da guerra.

Seja através de tradições da psicologia e estratégia política e militar, seja através do guerreiro zen e das artes promovidas por ele, não há dúvida de que a antiga filosofia e ciência da guerra chinesas estão muito presentes na cultura e nos hábitos do Japão contemporâneo.