O CAMINHO DO GUERREIRO ZEN (continuação)


A espontaneidade genuína, proveniente da imediação da consciência aberta e centrada (em vez do reflexo condicionado), é valorizada não apenas pelos guerreiros zen, mas por todos os que procuram aplicar a consciência zen às situações reais da vida. A mente zen transcende as fixações, mesmo as mais abstratas. inclui-se aí uma fixação comum entre os zenistas, a concentração numa técnica ióguica que os guerreiros e praticantes perseguiam extensamente.


Onde fixar a mente?
Se você fixa a sua mente nas ações de um adversário, sua mente é tomada pelas ações do adversário.
Se você fixa a mente na espada de um adversário, sua mente é tomada pela espada do adversário
Se você fixa a mente na idéia de aniquilar um adversário, sua mente é tomada pela idéia de aniquilar o adversário.
Se você fixa a mente na sua própria espada, sua mente é tomada pela sua própria espada.
Se você fixa a mente na determinação de não ser morto, sua mente é tomada pela determinação de não ser morto.
Se você fixa a mente na posição das pessoas; sua mente é tomada pela posição das pessoas.
A questão é: não existe realmente um ponto onde fixar a mente.
Algumas pessoas dizem: "Se fizermos a mente ir a alguma parte, ela se fixará onde ela for; colocando-nos em desvantagem diante dos adversários. Assim coloque a mente em suas entranhas e mantenha-a aí, adaptando-se ao mesmo tempo àquilo que os adversários fizerem.
É claro que poderia ser assim: mas; do ponto de vista de um estágio avançado do Budismo,
manter a mente na região inferior do abdômen é um estágio inferior. E o estágio da prática, o
estágio da recordação da seriedade, o estágio citado como "a busca da mente livre". Não é o
estágio transcendental superior; é o estado de espírito da seriedade
Se você forçar a mente a se situar em suas entranhas, abaixo do umbigo, e mantê-la aí, ela será tomada pela decisão de mantê-la ali; portanto, sua ação para diante será deficiente e você deixará de ser livre.

A prática, agora popular, de concentrar a atenção na região inferior do abdômen (hara) ao que parece foi introduzida no Japão por volta do ano 800. Era parte da doutrina de meditação da escola de budismo Tendai, estabelecida no Japão nessa época. No contexto do budismo Tendai, esse exercício é apresentado como uma antiga técnica de cura. Sua eficiência imediata no desenvolvimento do poder da estabilidade mental (jöriki), contudo, parece Ter sido a principal fonte de atração para os artistas marciais. Embora hoje seja bastante associada ao Zen-budismo (que na sua origem estava intimamente relacionado com a escola Tendai) como foram de cultivar a concentração (zenjö), é difícil se ouvir falar a respeito nas instruções de meditação dos mestres zen japoneses clássicos.

A prática da concentração no hara foi atribuída à doutrina taoísta de saúde por um ressuscitador do Zen japonês do século XVIII. Ele utilizou para curar certos problemas físicos e nervosos agudos dos quais sofria como resultado da reflexão demasiado intensa acerca dos Kians zen; contudo, entre os discípulos de sua escola, ao que parece este se tornou um método geral de concentração. Os praticantes dessa forma de Zen dirão que trabalham os koans, ou histórias zen, em suas entranhas. Ao longo do último século e meio, essa escola de Zen ganhou profunda influência entre as classes superiores no Japão, e a técnica de concentração no abdômen enganosamente fácil foi de pronto passada para as versões ocidentais do Zen, praticamente sem nenhum questionamento.

É provável, entretanto, que tenha sido através do Bushidö, e não do Zen puro, que essa prática se difundiu entre as pessoas comuns do Japão, a ponto de expressões como Hara ga dekite iru ("As entranhas estão realizadas") e Hara ga suwatte iru ("As entranhas estão estabelecidas") serem usadas coloquialmente, referindo-se a uma personalidade calma, contida e imperturbável. Pode ser uma imagem da maturidade em geral, mas também pode referir-se à serenidade e à sobriedade diante de um desafio de vida ou de morte extraordinário Em qualquer dos casos, o modo de utilizá-la é bastante típico do Bushidö ao longo dos últimos dois séculos.

Um dos perigos de concentrar a atenção na região inferior do abdômen, segundo fontes taoístas clássicas e modernas, está em que essa prática produz facilmente resultados na esfera da tranqüilidade e concentração, mas não pode conduzir à iluminação superior. O fascínio desse bem-estar e desse alivio parece ser a principal razão da fixação nesse ponto nos cultos zen e taoísta.

Concentração sem sabedoria é uma das endemias do Zen japonês, particularmente as formas de Zen sob a influência do Confucionismo e do Bushidö.

Não é exagero afirmar que a recuperação da mente básica é de importância fundamental no Zen. O equilíbrio natural da mente básica também era buscado por guerreiros como um centro de equilíbrio, do qual a ação espontânea podia emergir sem a inibição causada pelo acanhamento.

Os mestres zen e os artistas marciais que tentaram seguir o caminho zen consideravam caracteristicamente que as atitudes mentais essenciais de seus caminhos específicos eram úteis em todas as atividades e posições sociais, como jamais se cansaram de repetir. Eles não acreditavam que, em última análise, estavam treinando a mente para adaptar-se a padrões arbitrários, impostos ao praticante, mas sim para ter disponível a capacidade de desenvolver o potencial natural para a resposta fluida à situação em questão.

Seguidores do Zen ou das artes zen que impressionam os demais com uma dedicação eterna a "prática" podem na verdade ser os fracassos da persistência. Os sinais de que o guerreiro Miyamoto Musashi não conseguiu alcançar o estágio mais profundo do Zen estão ligados a essa questão. Por outro lado, sua angústia desgastante pode ter sido mestre da estratégia tanto no caminho budista como no caminho do guerreiro.