O CAMINHO DO GUERREIRO ZEN


Ao longo da Idade Média dilacerada pela luta no Japão feudal, pessoas de todas as posições sociais dedicavam-se ao aprendizado zen a fim de conhecer a essência do seu próprio caminho.

Quando a prolongada era dos Estados em Guerra chegou ao fim por volta do ano de 1600, um movimento começou a reunir e a sistematizar as artes e ciências dispersas daquele tempo estranhamente brilhante, conquanto turbulento.

Yagyü Munenori e Miyamoto Musashi foram guerreiros extraordinários que sobreviveram a um divisor de águas histórico na civilização japonesa. Eles usavam em suas obras um núcleo antigo de técnicas educativas e métodos de aprendizado para representar seu papel na adaptação da cultura a um novo clima histórico. Nessas condições, a necessidade do perigo para usar o caminho do guerreiro como meio de auto-aperfeiçoamento podia tornar-se facilmente uma ameaça à sociedade.

Um dos principais incentivos do ensinamento zen consiste em destronar o conhecimento intelectual de sua condição de acessório pessoal. Segundo The Flower Ornament Scripture, um dos textos prediletos dos mestres zen: "Assim como alguém que conta os tesouros de outrem sem Ter meia moeda de seu, assim é aquele que é erudito mas não faz uso dos ensinamentos. Assim como alguém que profere todo tipo de belas palavras mas sem real virtude interior, assim são aqueles que não praticam".

O Confucionismo já fora assimilado ao Zen da China quinhentos anos antes, enquanto certos tipos de Xintó e de arte poética japonesa (disciplinas já intimamente associadas, desde sua origem) foram bastante influenciados pelo Zen-budismo no Japão medieval. Durante o século XVII, no tempo de Takuan, de Yagyü e Musashi, era costume entre os mestres zen falar como se o Budismo, o Confucionismo e o Xintó fossem basicamente idênticos em espírito.

O estudioso do Zen e das artes zen, defrontava com o desafio de distinguir os níveis de praticantes: havia os adeptos completos, mestres do Zen e da arte; os especialistas, que conheciam suficientemente o Zen para dominar uma arte, ou que conheciam uma arte até o limiar do Zen; os diletantes, que procuravam imitar a aparência exterior dos especialistas para seu próprio divertimento; e os charlatões, que imitavam os especialistas para proveito próprio.

Um dos primeiros princípios zen de aprendizado é resumido no provérbio: "Contemplando a lua no céu, você perde a pérola em suas mãos." Um provérbio chinês também diz: "Corra e você não chegará." O primeiro mestre zen japonês Dögen por muito tempo negligenciado como pioneiro da literatura zen nativa no Japão e uma das grandes inspirações de Suzuki Shösan, expressou este princípio num poema:

Cave um lago
Sem esperar pela lua.
Quando o lago estiver terminado,
a lua surgirá por si só.

Um número cada vez maior de crianças entre os agricultores, artesãos e negociantes começasse a aprender a ler e a escrever graças ao trabalho das escolas de gramática budistas locais, no tempo de Shösan, e durante séculos posteriormente, os guerreiros foram a classe mais instruída no Japão. Portanto, suas palestras e escritos dirigidos especificamente aos guerreiros se concentram especialmente no tema da educação e do desenvolvimento do caráter.

A filosofia e a psicologia budistas baseiam-se na relatividade lógica e empírica de sujeito e objeto. Portanto, a objetividade é tratada através da crítica analítica combinada a exercícios interiores para minimizar a influência da subjetividade, visando desenvolver a capacidade de superar tendências auto-ilusórias. De acordo com o mestre zen Dögen, "estudar o budismo é estudar o eu. Estudar o eu é esquecer o eu. Esquecer o eu é ser iluminado por todas as coisas."

Segundo esse contexto zen, a auto-analise significa não apenas investigar o eu real, mas também conhecer as tendências subjetivas dos falsos eus. Esquecer o eu significa atravessar as barreiras da auto-ilusão por um falso eu. Ser iluminado por todas as coisas é o aprendizado direto através das experiências de vida tal como ela é, sem a mitologia dos falsos eus, que impõem seus julgamentos e preconcepções acerca do significado.

O Budismo ensina formas de transcender a compulsão e atingir a liberdade através do esquecimento do eu", nas palavras do mestre zen Dögen, Isso não significa que não há a consciência do eu, mas apenas que essa consciência não está contida em determinado eu. A iluminação atribuída aos budas inclui a consciência de todos os eus, inclusive os eus reais e possíveis, bem como o "eu dos eus". Naturalmente isso incluí o que costuma ser considerado o eu das outras pessoas, o que significa que a pessoa consciente dos eus dos outros também está consciente dos eus do próprio eu.

Ainda que separado da consciência da morte obrigatória aos guerreiros profissionais, a recordação da impermanência e da inevitabilidade da morte pessoal tem sido usada por budistas de todas as posições sociais como um dos métodos mais acessíveis e eficientes para libertar a mente do apego compulsivo às coisas. Esse é um dos exercícios básicos da prática budista elementar, encontrado no amplo espectro das escolas e escrituras budistas.

Os primeiros pesquisadores ocidentais que se dedicaram a esse tipo específico de prática e a trataram em separado da tradição maior do Budismo unitário naturalmente ficaram chocados com essa consciência da morte, e em conseqüência retrataram o Budismo como uma religião pessimista. Longe de ser mórbido, como declararam os exaltados críticos ocidentais, esse aspecto do Budismo na verdade possibilita aos praticantes apreciar mais plenamente a vida, ser mais livres e mais eficientes no que quer que façam. E ensina-os também a encarar com serenidade e destemor a morte e a doença.

Agora que essas dimensões de comportamento se tornaram presentes nas esferas das atividades comercial e política, e como o Zen também ficou comercializado e politizado, desenvolveu-se um interesse mais acadêmico pelos aspectos correspondentes no Zen. Conquanto muitas sejam as discussões e esquemas, nada como um estudo realmente abrangente do tema está disponível.

Provavelmente, o que a pessoa comum em busca de informação pode encontrar são livros representando ensinamentos, seitas ou escolas específicos; livros sobre as experiências pessoais do que praticam algum tipo de exercício zen, ou volumes acadêmicos sobre alguma relíquia do passado. Na verdade, muitos tratados sobre o Zen contêm elementos irracionais, baseados em grande medida nos apegos pessoais aquilo que os próprios zen-budistas chamam de "pistas".

Em termos budistas, a irrealidade última das coisas mundanas não quer dizer que elas sejam banais ou desprezíveis, mas sim que são maleáveis, o que significa que são manipuláveis. A percepção do vazio, portanto, não significa retirar-se do mundo, mas sim a capacidade de mudar o potencial de evolução. Shösan segue descrevendo o tipo de mudança e progresso ao qual o Zen-budismo aspira quando cura as "doenças mentais" que mantêm a humanidade mergulhada em atitudes animalescas. Aqui a relação íntima entre a libertação individual e a libertação coletiva torna-se evidente.

O ensinamento budista sobre a irrealidade objetiva ou o vazio dos fenômenos condicionado foi escolhido caracteristicamente como alvo principal da invectiva antibudista, tanto no Oriente como no Ocidente, por aqueles que compreenderam erroneamente a doutrina como uma forma de niilismo ou de quietismo.

O objetivo primordial do Zen é recuperar a experiência da mente original através de si mesmo. A partir desse ponto de vista é possível que se dê um fim à ilusão do apego às superficialidades. Devido à persistente tendência da mentalidade superficial a agarrar-se a aspectos exteriores, a disciplina necessária para liberar a energia mental dos obstáculos não pode ser realmente imposta à pessoa a partir de fora, mas precisa vir de dentro. Na ausência de força interior correspondente, a disciplina exterior em si torna-se um apego, um acessório do ego, levando ao tipo de cultismo e religiosidade sentimental tão freqüentemente encontrado nos autoproclamados círculos espirituais.

Durante séculos tem havido uma tendência bastante marcada nos círculos zen para identificar velocidade com espontaneidade, graças ao uso da primeira como uma imitação ou substituta para a última. A mesma idéia ainda prevalece nas escolas zen, nas quais o diálogo ritual é altamente valorizado. Ela também foi promovida no Ocidente pelo popular autor D. T. Suzuki, o qual freqüentemente dava a impressão de que o Zen depende da rapidez intelectual, a ponto de bastar qualquer tipo de declaração ou ação absurda, contanto que seja tão rápida que pareça espontânea.

Como resultado dessa tendência, torna-se confusa a diferença entre reações automáticas (tais como dizer ou fazer o que quer que venha à mente no momento) e a resposta desperta e precisa da consciência fluida, conforme originalmente desenvolvida no Zen autêntico.