O BUSHIDO E AS ARTES MARCIAIS


O tema da arte da guerra é um dentre os vários caminhos tradicionais da cultura japonesa a ser estudado tanto por líderes políticos como por guerreiros profissionais.

"As artes da guerra são a ciência dos especialistas militares. Em particular, os líderes que praticam essas artes e os soldados também devem conhecer essa ciência. Atualmente não existem guerreiros dotados da compreensão acurada da ciência das artes marciais".

Pouco antes do nascimento de Musashi, o Japão fora mais ou menos reunificado, depois de um século de guerras civis. Seu tempo ainda foi altamente militarizado e caracterizado pelo conflito armado interno e externo. Ele iria falecer pouco depois da destruição final da oposição ao novo shogunato, estabelecido ao longo de sua vida. No seu estudo clássico sobre a estratégia, escrito no fim da sua vida, Musashi afirma que os guerreiros do seu tempo não compreendiam realmente as artes marciais; não fica claro se ele considerava esse declínio da tradição como tendo origem em tempo de guerra ou tem tempo de paz.

Contudo, Musashi sem dúvida considerava o caminho do guerreiro uma vocação especial. Assim como em qualquer outro Caminho, a supremacia dependia em grande medida da afinidade do praticante com a senda. Musashi compara a arte da guerra com outras artes como uma especialização que exige sua própria e característica inclinação.

Para Musashi, poucas pessoas apreciam as artes marciais, e isto é radicalmente contrária à sua moderna popularidade, tanto na Ásia como no Ocidente. Na época de Musashi, contudo, o caminho do guerreiro não era um passatempo, mas um estilo de vida como um todo. Esse tipo de vida incluía rigores e perigos, que logo iriam desaparecer até mesmo do mundo dos samurais japoneses.

O caminho de Musashi tinha uma característica em comum com os conceitos filosóficos chineses clássicos do caminho do guerreiro, qual seja, sua ênfase numa combinação equilibrada de aprendizado prático tanto nas artes culturais como nas marciais: "Antes de mais nada", escreveu ele, "o caminho do guerreiro significa familiaridade com as artes culturais e marciais". Na China antiga, quando as guerras ainda eram travadas exclusivamente por homens das casas aristocráticas, a palavra simples shi, ou "cavaleiro", significava tanto erudito quanto guerreiro. O aprendizado dessa classe de homens era considerado uma das tarefas mais importantes da cultura.

Posteriormente, os eruditos ainda eram adestrados nas artes marciais, enquanto os guerreiros também aprendiam artes culturais. Essa prática foi adotada pelos samurais das classes altas do Japão, onde a identificação das elites civis e militares foi mais completa e duradoura do que na China, graças à sua formação Musashi inevitavelmente dava mais importância às artes marciais.

Uma das características do caminho do guerreiro que parecem distingui-lo do caminho da cultura é a presença constante da morte. Costuma-se dizer que os guerreiros apreciavam o Zen-budismo, entre outras razões, porque ele os ensinava a enfrentar a morte com serenidade, Musashi, ele mesmo profundamente interessado pelo Zen, rejeita essa argumentação.

O fato notável na sociedade japonesa do século XVII,era que as pessoas de todas as posições sociais compreendiam a inevitabilidade da morte, sem Ter absolutamente de relacioná-la com o dever ou com a consciência. Os camponeses comuns estavam tão próximos da morte quanto qualquer guerreiro; muito menos os guerreiros burocráticos, para os quais as artes marciais eram um passatempo. A política do shogunato consistia em manter as pessoas inseguras de seu destino; por isso, elas não precisavam do Budismo para lembrá-las da evanescência da vida.

Os agricultores, que constituíam quatro quintos da população nessa época, eram sobrecarregados com tributos tão elevados que constantemente se sentiam ameaçados de inanição. Também eram ameaçados de burei-uchi ("ser morto por insolência") sempre que estavam na presença dos samurais. Assim, independentemente de serem guerreiros ou camponeses, não era exatamente a cultura tradicional do Budismo que fazia as pessoas se lembrarem da morte, mas a proximidade real da morte é que provocava o interesse pelo Budismo.

Por conseguinte, Musashi rejeitava a idéia habitual de que a consciência da morte iminente é a disposição de ânimo característica e fundamental do caminho do guerreiro. Ao contrário, ele dizia que é a necessidade opressora de vencer. Mesmo admitindo o papel relativamente limitado da competição no seu tempo, Musashi é talvez ingênuo ao considerar essa necessidade de vencer característica dos guerreiros, tão ingênuo quanto julgava os demais em suas opiniões. Por outro lado, a estreiteza de seu pensamento nessa questão não é sua, mas subproduto do sistema de castas em que vivia.
Retratando seu ponto de vista como samurai do Japão feudal, Musashi descreve o caminho do guerreiro nos seguintes termos:

O caminho da execução das artes marciais dos guerreiros baseia-se de todo modo na superação dos demais. Seja vencendo um duelo individual ou um combate com várias pessoas; o pensamento é o de servir aos próprios interesses, aos interesses do patrão, de se tornar conhecido e socialmente estabelecido. Tudo isso é possível através das artes marciais.

Isso já acontecia com outras profissões no tempo de Musashi, e é ainda mais verdadeiro na atualidade. A atual popularidade dos escritos de Musashi e de outros guerreiros atesta sua relevância para diferentes posições sociais. O próprio Musashi corrige sua visão nesse livro. Quanto às próprias artes marciais, a estilização e abstração formais que as caracterizam hoje já começavam quando Musashi escreveu seu famoso tratado, anos depois da última guerra dinástica. Graças a isso ele lança um alerta contra o diletantismo no caminho do guerreiro, ressaltando a necessidade de habilidade para adotá-lo. O caminho tem de ser útil não apenas em combate, escreve ele, mas também em todos os aspectos da vida. Musashi lamenta a comercialização das artes marciais, acarretando a fragmentação da ciência, com elaborações nada práticas e movimentos baseados no senso teatral e não na eficiência da guerra.

Nos últimos tempos; as pessoas que ganham a vida como artistas marciais são apenas mestres em esgrima. Só muito recentemente os sacerdotes xintoístas de determinadas regiões percorrem as províncias ensinando ás pessoas diversos estilos de esgrima, por eles desenvolvidos e passados adiante como se houvessem sido transmitidos pelos espíritos.

Da forma como vejo a sociedade, as pessoas transformam as artes em produtos comerciais. Elas pensam, inclusive, em si mesmas como mercadorias, e também se aparelham para aumentar seu valor comercial. Essa atitude assemelha-se a flores comparadas a sementes: as flores são mais numerosas do que as sementes; há mais beleza do que realidade.
Particularmente nas artes marciais existe muita teatralidade e vulgarização de caráter comercial. O resultado disso tem de ser, como disse alguém: "As artes marciais amadoras são uma fonte de sérios danos".

Musashi ressalta a sabedoria de aprender todos os aspectos e todas as artes de uma profissão ou negócio. Isso reforça a antiga instituição do aprendizado, através do qual as pessoas podiam dominar uma ocupação em todos os seus aspectos por meio de um processo natural do desenvolvimento. O principio também tem sido aplicado pelos japoneses no mundo dos negócios da última metade do século XX, e constitui um dos maiores fatores de sustentação para as bem conhecidas vitórias técnicas e sociológicas conquistadas pela indústria e pelos negócios japoneses.

A estrutura exterior do aprendizado do guerreiro se baseie na interdependência de diversos fatores, sua dimensão interior baseia-se na relação entre o aprendiz e o aprendizado. O preciso equilíbrio dos elementos externos e internos sempre foi considerado uma das habilidades superiores da mestria e foi uma arte estudada com particular dedicação pelas antigas escolas zen.

Existe um provérbio zen que diz: Isso é isto, mas se te fixares nisso, isso não será mais isto." O que significa que a realidade imediata por si só é a iluminação, como afirmam tão freqüentemente os ensinamentos zen, salvo se o reconhecimento conceitual de que "isso é isto" substitui a experiência direta, deflagrando de novo o mecanismo de fixação. Portanto, o símbolo do espelho, refletindo espontaneamente, sem subjetividade e sem reter quaisquer imagens, passou a ser usado como alegoria popular para a mente zen elementar.

Diz um provérbio taoísta: "O negociante esperto esconde suas mercadorias e finge nada ter." Os clássicos taoístas e zen também falam em "suavizar a luz para se harmonizar com o mundo". A exibição consciente de si mesmo é considerada não apenas inconveniente como contraproducente. Disse um mestre zen chinês da dinastia Sung: "Aqueles que não possuem virtudes reais interiores, mas que externamente contam com talento floreado, são como barcos furados mas pintados com cores brilhantes - se você colocar bonecos nos barcos e lançá-los em terra seca, eles parecerão bem; mas quando entrarem nos rios e lagos, quando enfrentarem o vento e as ondas, não correrão perigo?"

A prática de "esconder a própria luz" de modo a afigurar-se um ser normal aos olhos dos demais era empreendida deliberadamente pelos antigos místicos budistas e taoístas depois de alcançarem a iluminação, na convicção de que assim poderiam alcançar níveis mais elevados dc sutileza do que se deixasse admirar pelo seu conhecimento.

Praticamente tem todos os campos das artes tradicionais japonesas, era costume começar com uma vigorosa devoção a formas e ritos padronizados. Supunha-se que essa atitude induzia o estudante a ter a "sensação" da arte intuitivamente, sem se deter para racionalizar e projetar idéias subjetivas na própria ação. O propósito dessa disciplina rígida, contudo, não era automatizar o aprendiz, mas oferecer uma estrutura segura de apoio para uma faculdade extra de percepção, a qual poderia ser exercitada uma vez que a atenção consciente ao fundamento formal deixasse de ser necessária.

O objetivo principal da liberdade e da espontaneidade não era buscado arbitrariamente, mas de acordo com um processo gradual, que já havia sido testado.

O guerreiro Musashi também seguiu o ensinamento zen sobre a clareza e a fluidez da mente como fundamento da própria arte do aprendizado, aplicável tanto às artes marciais e ao caminho do guerreiro quanto a qualquer outra arte ou caminho.

Na obra do guerreiro Musashi torna-se evidente que o esclarecimento da mente, objetivo da prática zen elementar, torna-se uma espécie de porta para o desempenho intensificado. No seu Livro das Cinco Esferas, Musashi ressalta a importância do discernimento perceptivo, não apenas no caminho do guerreiro, mas em todas as posições sociais para adquirir uma compreensão objetiva dos mecanismos do senso de oportunidade e de sucesso.