O ZEN NA HISTÓRIA DO JAPÃO


O zen é uma das escolas de Budismo japonês que surgiu junto com o declínio da aristocracia feudal e o estabelecimento, pela elite militar, de uma estrutura de poder centralizado. Sendo a única importada da China tornou-se muito prestigiada aos olhos de seus adeptos.O zen foi patrocinado pelos primeiros Shoguns visando uma revolução cultural e aumentar o prestígio de guerreiros.

Apesar do zen não Ter sido a única seita do Budismo a atrair adeptos entre os guerreiros podemos observar traços aparentemente indeléveis de influência militar sobre o zen japonês, bem como de influência zen sobre o exército japonês, sendo difícil separar as duas tendências, embora ambas afetassem a vida cultural e política da nação.

Junto com seus próprios ensinamentos, o zen chinês trouxe o Neoconfucionismo para o Japão, uma combinação do antigo idealismo social confucionista e do misticismo budista, utilizado pelos primeiros mestres zen para instilar valores humanistas na mente da nova elite guerreira.

O zen produziu uma vigorosa inspiração na direção da espiritualidade pura, contudo, existe uma distinção clara entre o zen do espírito e o zen do poder. Havia um abismo entre a igreja zen politizada e o zen espiritual que praticamente desapareceu com a fundação do terceiro shogunato.

Os primeiros mestres zen eram monges cultos das escolas clássicas que haviam se insurgido contra o materialismo e a politização do templo budista e então foram até a China em busca de respostas e encontraram o CHAN (o Zen), foram de Budismo diferente do que se conhecia no Japão daquela época. No entanto, essa forma de Budismo sofria com os costumeiros problemas da institucionalização provenientes do estímulo de sentimentos de propriedade relacionados com uma religião ou organização.

O movimento zen japonês também foi incrementado pelos monges chineses, que buscavam exílio político do regime da dinastia mongol yuan. As artes zen da cultura, da poesia, da pintura, do ritual e do planejamento ambiental foram desenvolvidos e elaboradas durante o segundo shogunato que patrocinou o zen-budismo na região de Kyoto o que reiniciou as comunicações com a China. A educação liberal dos samurais de classe alta foi entregue em grande parte aos cuidados dos monges zen eruditos da capital.

Seguidores do zen espiritual tendiam a evitar os mosteiros renomados, preferindo buscar mestres modestos nas províncias. Nas gerações posteriores, os praticantes do zen pouco uso faziam da poesia das instituições da elite zen conhecida como GOLAN, ou "Cinco Montanhas".

A tradição da poesia e cultura secular das Cinco Montanhas foi continuada pelos especialistas neoconfucionistas, enquanto a tradição da poesia zen para uso prático e não ornamental foi renovada no movimento restaurador do Zen mais tarde.

Devido à corrupção em suas instituições (século XV), o Zen foi virtualmente extinto na forma espiritual, se não na social e política. Um monge zen excepcional do século XV, o amado e popular Ikkyü, escreveu que todas as escolas zen haviam perdido a mensagem e eram nomes sem realidade. Ikkyü foi um critico incisivo, dotado de irreprimível senso de humor Seus escritos em vernáculo forjaram um elo único com a cultura popular, e ele acabou se tornando uma figura folclórica, tema de inúmeras fábulas repassadas de inteligência e sabedoria.

Ele escreveu que as pessoas antigamente iam aos mosteiros em busca da iluminação, mas agora estavam deixando os mosteiros para buscar a iluminação.Excetuando-se as atividades de um número relativamente pequeno de praticantes fora dos grandes estabelecimentos urbanos, o Zen-budismo, de maneira geral, havia se tornado um movimento cultural.

A situação do Zen-budismo mudou radicalmente no século XVII, com a rejeição do Zen cultural e intelectual da Idade Média e o estabelecimento de novas escolas vigorosas de ensinamentos zen. A Paz Tokugawa foi estabelecida em todo o Japão, tornando mais fácil para os estudiosos sair em peregrinação a fim de reunir o saber disperso da prática zen medieval.

A política governamental constituiu um obstáculo ao maior desenvolvimento do Zen. Sob essa política, foram instituídas inúmeras medidas para limitar rigorosamente as atividades e a influência do Budismo. Este sempre fora considerado uma espécie de ameaça ao Estado quando não fazia parte do próprio mecanismo de autoridade governamental. A tentativa Tokugawa de fossilizar prematuramente o Budismo e de reduzir seu poder teve início no século XVII, com o ressurgimento do próprio Zen. Essa ameaça externa á vida espiritual do Zen foi ainda mais agravada no século XVIII, com a sua anexação às formas da religião.

Em meados do século XIX, com a substituição do terceiro shogunato pela lei imperial direta e o fim do isolacionismo radical do Japão feudal anterior, o Zen-budismo foi submetido a novas pressões. O Budismo foi atacado, dentro do Japão, como religião estrangeira pelo estabelecimento do Estado xintó sob a liderança do imperador. Muitos templos foram confiscados e convertidos em santuários xintoístas.

O Budismo foi ameaçado do exterior pela agressividade das missões cristãs, na tentativa de unir o conhecimento técnico ocidental e o Cristianismo. Os budistas japoneses reagiram à polêmica européia de diferentes maneiras. Alguns mergulharam mais profundamente nas escrituras budistas e nos clássicos para defender sua fé contra a difamação ocidental. Outros tornaram-se iogues fanáticos, mestres ou artistas marciais. Outros ainda imitaram os métodos da escolástica ocidental e tentaram usá-los para analisar seus clássicos e suas histórias, tornando-se acadêmicos e intelectuais profissionais de acordo com os modelos europeus.

Traços de todas essas tendências ainda são encontradas no Japão de hoje, mas as formas inspiradas pela ioga, a disciplina e as artes marciais do Zen e do budismo tendem a trair mais o interesse geral do que o acadêmico tradicional ou ocidentalizado. Depois da queda do último shogunato e com o fim do patrocínio do Budismo pelo Estado, deu-se uma atenção cada vez maior ao entusiasmo e apoio populares então em alta. Um dos importantes pioneiros desse movimento foi um monge zen notável, de nome Nantembö, que sacudiu o mundo do Rinzai-Zen com ataques fulminantes ao seu sacerdócio hereditário e fez campanha por um sistema de capacitação universal para os mestres rinzai-zen.

Conquanto apenas alguns discípulos desse mestre zen tenham aprendido deus ensinamentos completos, ele teve milhares de adeptos leigos, e sua influência foi amplamente difundida através de vasta correspondência, entrevistas pessoais e encontros de reavivamento do Zen, nos quais as pessoas se reuniam para fazer exercícios de concentração intensiva, pontuados por embates com o mestre.

Alguns praticantes do Zen também têm utilizado esse método em tentativas de popularizar o Zen no Ocidente, na suposição de que a rapidez e a dramaticidade de seus efeitos iniciais poderiam interessar e inspirar os ocidentais ainda não acostumados a idéias mais sutis.

Os efeitos colaterais causados pela superestimação e pela superutilização de métodos hiperintensivos apareceram mais tarde, em gerações subseqüentes, e permanecem entre as questões que as modernas escolas zen e os sistemas de treinamento dos movimentos que elas influenciaram têm de enfrentar. Técnicas paralelas e derivadas já apareceram no Ocidente, patrocinadas por organizações japonesas e ocidentais e usadas em contextos religiosos e seculares. Essas relíquias dos estilos marciais feudais do Zen estão tão intimamente relacionadas com o estilo jigoku (inferno) de treinamento japonês do soldado/cidadão, que sua base no Bushidö destaca-se para a análise objetiva em qualquer estudo pragmático dos pontos comuns entre as culturas japonesa e ocidental, seja na esfera da religião, seja na da educação ou da indústria.