ARQUITETURA JAPONESA

CAPÍTULO 2

A ARQUITETURA JAPONESA

2.1- SURGIMENTO DA ARQUITETURA JAPONESA

Embora se acredite que o arquipélago japonês tenha sido habitado desde o Período Paleolítico, somente há vestígios de locais habitados que datam do Neolítico. A sociedade deste período pode remontá-lo antes do ano 10.000 a.C. e foi a primeira cultura de cerómica do mundo. As primeiras comunidades do Neolítico se estabeleceram nas planícies. No Período Neolítico Médio, foram estabelecidas aldeias cujas habitações eram fossas com cobertura de palha sustentada por pilares, dando origem a uma sociedade baseada na caça e na coleta de alimentos. Entretanto, o desenvolvimento da agricultura ocorreu aproximadamente 4.000 anos depois do que no continente eurasiano, pela inexistência até então de planícies de aluvião necessárias ao cultivo de arroz.

O arquipélago japonês apresenta íngremes cadeias de montanhas formadas por atividades geológicas ainda em andamento. As planícies, com efeito, acumulações de resíduos de montanhas carregadas através de vales profundos que rios de forte correnteza cavam nas montanhas. A temperatura por volta de 5.000 a.C. era aproximadamente 4 graus centígrados superior à atual. O nível do mar era vários metros mais elevado, fazendo com que o oceano avançasse mais terra adentro do que atualmente. Depois, porém, a temperatura subitamente caiu, o litoral retrocedeu, o solo acumulou-se nos baixos e as planícies de aluvião se formaram. O cultivo de arroz começou aproximadamente no ano 3 a.C., aparecendo então as primeiras construções com piso elevado a telhado de duas águas, que mais tarde se tornariam características da Corte Yamato. Contudo, as pessoas comuns continuavam a habitar fossas, cujo formato quadrangular com quatro pilares e cantos arredondados se tornou padrão na maior parte do país.

Quase simultaneamente ao início da prática da agricultura, o país inteiro era destroçado por guerras. Comunidades agrícolas escavaram valas e construíram paliçadas em torno de suas aldeias e mais tarde as descolaram para áreas mais elevadas em busca de proteção. Na Grécia e em outras regiões da Europa da antiguidade, essas povoações elevadas se desenvolveram até se transformar em cidades, mas no Japão elas acabaram sendo abandonadas e usadas como áreas para imensos mausoléus reais. Acredita-se que, entre os séculos IV e VI, foram construídos em todo o país até 20.000 desses mausoléus, chamados kofun. Isso em geral não se encontra em países asiáticos vizinhos e, na verdade, raramente é visto em qualquer outra parte do mundo.

Os kofun tinham uma variedade de formatos: quadrangular, redondo, quadrangular na frente e redondo atrás, e quadrangular tanto na frente como atrás. Porém, os principais témulos, imensas sepulturas em forma de buraco de fechadura, tinham o mesmo feitio das sepulturas da antiga realeza Yamato. Acredita-se que a razão disso era a aliança que os reis Yamato tinham com senhores feudais de várias regiões. Hoje, os témulos kofun estão cobertos de vegetação, assemelhando-se a outeiros naturais. Quando foram construídos, no entanto, tinham sua superfície salpicada de pedras, e os mausoléus em forma de buraco de fechadura serviam simultaneamente como témulo real e santuário de orações. Sua aparência original pode ser inferida a partir do mausoléu Goshiki Zuka, de Kobe, recentemente restaurado. Os maiores kofun são o Nintoku e o Ojin, do século V, na região sul da atual Osaka. O mausoléu Nintoku tem 486 metros de comprimento, apresentando uma área de base mais ampla do que a maior das pirómides egípcias. E formado também por três vales, o que o transforma no maior monumento do mundo em área total. O Ojin ocupa uma superfície pouco menor, mas apresenta uma capacidade total maior.

As constantes cheias durante este período e a consequente expansão das planícies de aluvião tornavam o cultivo de arroz uma batalha constante contra as inundações, acima das forças de comunidades isoladas. Além do que, em contraste com o Oriente Médio e o Oriente Próximo, onde o desenvolvimento ocorreu em vastas planícies de bacias de grandes rios, as planícies japonesas eram divididas em numerosas áreas pequenas entre os rios e o mar. Os habitantes dessas áreas formavam grupos que dependiam do mar e dos rios como linhas naturais de defesa. Praticou-se a agricultura, com um controle sistemático de inundações sob a regência do soberano de cada uma das áreas. Os kofun espalhados pelo Japão indicam a existência dessas comunidades naquele período. No Oriente Próximo e no Oriente Médio, por sua vez, a necessidade de um trabalho sistemático de controle de inundações em imensa escala deu origem a Estados autocráticos, de que prestam testemunhos gigantescos monumentos como as pirómides do Egito e os zigurates da Mesopotómia. Embora se saiba que o mausoléus de Nintoku e Ojin também estivessem associados ao controle de inundações, o Japão não era um Estado autocrático e sim um amálgama de pequenos Estados; a história teve início com as alianças estabelecidas entre eles.